Vivia numa rua em Alcântara, perto do Calvário. Mesmo por cima da loja que vendia cerejas em Junho e alguidares de barro todo o ano. Todas as manhãs, da janela da sala, onde apenas cabia o tempo do sofá coçado e a vista para a ponte, via ser desenrolado o toldo cor de laranja. Bastava-lhe o primeiro chiar enferrujado para se chegar à janela. Lá em baixo, a cabeça cor de baunilha oleosa acenava a quem passava. Bom dia, senhor Ernesto, dizia. Ele dobrava a manivela e encostava-a à parede descascada. Bom dia, menina. Depois ficava os minutos que lhe sobravam até ser hora do autocarro, a ver os carros afastarem-se na ponte. Embalava-a, aquele som que se perdia até ao outro lado do rio. É o efeito de Doppler, dissera-lhe um dia um dos alunos que passara pela sua cama. Não se lembrava do rosto dele. Mas lembrava-se da voz tímida, sentada, em tronco nu, no sofá coçado da sala. É o efeito de Doppler, repetira, tão a medo, como lhe tocara no corpo nessa noite. A percepção das noites esbatia-se quando eles se afastavam do quarto, dobrando a esquina da rua. Depois, esquecia-se do rosto de todos eles. É o efeito de Doppler, murmurou. Lá em baixo uma velha escolhia um alguidar de barro.
1 Comentários:
Por um lado fala se de física... por outro fala-se de físico!
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