8 de Junho de 2011

Doppler

Vivia numa rua em Alcântara, perto do Calvário. Mesmo por cima da loja que vendia cerejas em Junho e alguidares de barro todo o ano.  Todas as manhãs, da janela da sala, onde apenas cabia o tempo do sofá coçado e a vista para a ponte, via ser desenrolado o  toldo cor de laranja. Bastava-lhe o primeiro chiar enferrujado para se chegar à janela. Lá em baixo,  a cabeça cor de baunilha oleosa acenava a quem passava. Bom dia, senhor Ernesto, dizia. Ele dobrava a manivela e encostava-a à parede descascada. Bom dia, menina.  Depois ficava os minutos que lhe sobravam até ser hora do autocarro, a ver os carros afastarem-se na ponte.  Embalava-a,  aquele som que se perdia até ao outro lado do rio.  É o efeito de Doppler, dissera-lhe um dia um dos alunos que passara pela sua cama.  Não se lembrava do rosto dele. Mas lembrava-se da voz tímida, sentada, em tronco nu, no sofá coçado da sala. É o efeito de Doppler, repetira, tão a  medo,  como lhe tocara no corpo nessa noite. A percepção das noites esbatia-se quando eles se afastavam do quarto, dobrando a esquina da rua. Depois, esquecia-se do rosto de todos eles.  É o efeito de Doppler, murmurou. Lá em baixo uma velha escolhia um alguidar de barro. 

1 Comentários:

mfc disse...

Por um lado fala se de física... por outro fala-se de físico!