4 de Maio de 2011

36 e meio

Todas a sextas de manhã era o mesmo. O corpo doía-lhe da pancada que ele lhe dava depois de se servir do corpo dela. Aliviava a raiva nela, de todas as formas que o corpo lhe permitia. Apenas com o corpo, porque o fazia num silêncio ressentido que nela deixava nódoas negras ainda maiores. E mal havia luz do dia, ela levantava-se devagarinho e sem gemer. Para não o acordar. Para não o ver chorar e prometer-lhe que não voltava a acontecer. Preferia a pancada e o corpo rígido sobre o dela. Lavava-se, vestia-se e corria para a sapataria que ficava em frente à repartição de finanças onde trabalhava. E lá estavam eles. Vermelhos, sem preço.  Que as coisas que nos descansam os olhos não têm preço, dizia ela. E onde ias tu com uns sapatos daqueles, mulher? Perguntava-lhe a colega gorda e de cabelo oleoso, que estava na tesouraria. Até ao fim do mundo, respondia. Porque só o fim do mundo fica suficientemente longe daqui.
Até que numa sexta feira, daquelas sem movimento, uma mulher que já fora bonita pediu-lhe baixinho  a  guia para pagar o selo do carro. Ela levantou os olhos do teclado do balcão e viu-lhe o rosto negro e amassado, que tentava desesperadamente dissolver-se na madeira do balcão. O meu homem zangou-se por eu ter deixado passar prazo. Fez um sinal à colega gorda e oleosa da tesouraria. Um sinal com a mão, porque o nó da garganta não a deixou falar. Para que ficasse no lugar dela um bocadinho. E saiu disparada até à loja da frente, onde comprou os sapatos em troca da aliança. Nem se quis ver ao espelho com eles calçados. Disse o dono da sapataria. Também não disse para onde ia. Mas não deve voltar.Que os sapatos lhe serviam como uma luva.

9 Comentários:

CF disse...

:):):) Muito bom. Como sempre...

tiaselma.com disse...

Sapatos vermelhos como os de Dorothy? Não volta a sua dona... Nem tão cedo.

Beijocas!

mfc disse...

Lindo conto.... como deveria ser a vida!
Ela encontrou um escape!
Um sonho curto... mas ainda assim um sonho!

paraquedista disse...

Gosto.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Há sempre um dia em que somos capazes de cortar as amarras e lutar contra as rotinas, não é verdade?

Mar Arável disse...

... e assim

se levantou do chão

Laura Ferreira disse...

Lindo, como sempre. O teu blog é um dos que eu nunca deixo de visitar.

Nilson Barcelli disse...

Um mini-conto muito bom.
Gostei da simbologia dos sapatos vermelhos. Que eles nunca faltem a nenhuma mulher que deles precise.
Beijos, querida amiga.

© Piedade Araújo Sol disse...

C.

e (agora) quem ficou com um nó na garganta, fui eu.

muito bom, como sempre.

um beij