Todas a sextas de manhã era o mesmo. O corpo doía-lhe da pancada que ele lhe dava depois de se servir do corpo dela. Aliviava a raiva nela, de todas as formas que o corpo lhe permitia. Apenas com o corpo, porque o fazia num silêncio ressentido que nela deixava nódoas negras ainda maiores. E mal havia luz do dia, ela levantava-se devagarinho e sem gemer. Para não o acordar. Para não o ver chorar e prometer-lhe que não voltava a acontecer. Preferia a pancada e o corpo rígido sobre o dela. Lavava-se, vestia-se e corria para a sapataria que ficava em frente à repartição de finanças onde trabalhava. E lá estavam eles. Vermelhos, sem preço. Que as coisas que nos descansam os olhos não têm preço, dizia ela. E onde ias tu com uns sapatos daqueles, mulher? Perguntava-lhe a colega gorda e de cabelo oleoso, que estava na tesouraria. Até ao fim do mundo, respondia. Porque só o fim do mundo fica suficientemente longe daqui.
Até que numa sexta feira, daquelas sem movimento, uma mulher que já fora bonita pediu-lhe baixinho a guia para pagar o selo do carro. Ela levantou os olhos do teclado do balcão e viu-lhe o rosto negro e amassado, que tentava desesperadamente dissolver-se na madeira do balcão. O meu homem zangou-se por eu ter deixado passar prazo. Fez um sinal à colega gorda e oleosa da tesouraria. Um sinal com a mão, porque o nó da garganta não a deixou falar. Para que ficasse no lugar dela um bocadinho. E saiu disparada até à loja da frente, onde comprou os sapatos em troca da aliança. Nem se quis ver ao espelho com eles calçados. Disse o dono da sapataria. Também não disse para onde ia. Mas não deve voltar.Que os sapatos lhe serviam como uma luva.
9 Comentários:
:):):) Muito bom. Como sempre...
Sapatos vermelhos como os de Dorothy? Não volta a sua dona... Nem tão cedo.
Beijocas!
Lindo conto.... como deveria ser a vida!
Ela encontrou um escape!
Um sonho curto... mas ainda assim um sonho!
Gosto.
Há sempre um dia em que somos capazes de cortar as amarras e lutar contra as rotinas, não é verdade?
... e assim
se levantou do chão
Lindo, como sempre. O teu blog é um dos que eu nunca deixo de visitar.
Um mini-conto muito bom.
Gostei da simbologia dos sapatos vermelhos. Que eles nunca faltem a nenhuma mulher que deles precise.
Beijos, querida amiga.
C.
e (agora) quem ficou com um nó na garganta, fui eu.
muito bom, como sempre.
um beij
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