Cuspia no chão sempre que passava pelo padre da vila. Tirava a velha boina basca, pousava-a sobre o lado esquerdo do peito, aquele onde acreditava ter o coração, e cuspia. E ficava, hirto, de boina ao peito de olhos fixos no padre que atravessava a estrada. És doido, diziam abanando a cabeça. Não, respondia. Sou um homem de fé. E as mulheres de quase-negro benziam-se. Ou beijavam a cruz, se a trouxessem ao peito. O que sabes tu de fé, homem? Tu que cospes aos homens de Deus? E ele guardava a boina no bolso das calças e lembrava-se. Lembrava-se da tia, que sempre fora velha, e que também deixara de ir à igreja por acreditar que o incenso lhe fazia mal à bronquite, lhe dizer que Deus-nosso-senhor só aparecia àqueles que dele duvidavam. E dois dias depois de fazer nove anos, na missa de Domingo, começou a cuspir. Ao padre que lhe estendeu o cesto das oferendas. Depois, sentou-se de mãos no colo e rosto a arder pela mão envergonhada da mãe e esperou. Esperou que Ele viesse e que o inundasse daquela fé que fizera o primo ir para o seminário. És doido, diziam na vila. E ele sorria e dizia baixinho: Talvez, mas o sacana ainda um dia me aparece.
5 Comentários:
Quando a ficção se torna realidade
apetece amar melhor as palavras
Eu acho que sou Teófilo...!
Giríssima, Cristina, essa expressão simples, ingénua, de uma fé ardente. Gostei muito. :-)
Há muito Teófilo por aí. Para o bem e para o mal... Gostei da forma como escreve o texto.
Um beijo.
Cristina
andei a ler os postes atrasados e demorei-me neste.
acho que há muito teofilos por aí.
admiro a tua facilidade em escrever narrativas com mestria de mão feita.
um beij
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