29 de Março de 2011

Da solidão da língua portuguesa

Dez minutos antes de sair para o café, abria o dicionário de capa verde numa página nova e decorava as palavras que lhe pareciam ser as mais difíceis. Passava os dedos por cima de cada uma daquelas linhas escritas em itálico, com o mesmo cuidado com que punha batom.Palavras que depois rolaria lentamente na sua boca de lábios finos, entre duas baforadas de cigarro. O silêncio dos outros, que ela confundia com espanto, demorava o tempo do largar da cinza no cinzeiro de alumínio. Que ela fazia com um gesto seco e seguro. Naquele dia decorara ósculo. O mesmo que beijo. Pequena abertura, face externa dos grãos polínicos. Mas ninguém no café falava de botânica. Ela muito menos, que nem o nome das plantas que a mãe lhe trazia em vasos pequenos de barro, sabia. Mas um beijo, ou da ausência deles, toda a gente teria algo a dizer. E enquanto punha verniz numa malha aberta dos collants, imaginou-se a dizer lentamente: Ósculo. Gosto de ósculos. Gosto que me osculem.  Um beijo, dito desta forma, por uma mulher de rosto transparente como o seu, perdia a viscosidade da solidão, ganhava a erudição de quem só não beijava porque não queria. Quando se sentou na segunda mesa a contar da janela, sorriu ao perceber que se falava exactamente de beijos. Dos beijos memoráveis. Ela acendeu o cigarro, deu a primeira baforada e disse: Já não me lembro do meu primeiro ósculo. Antes de soltar a segunda, sentiu que lhe seguravam levemente na mão. Um dos rostos da mesa aproximou-se do seu e disse-lhe baixinho: Tenho pena da tua solidão, Adelaide. Soltou o fumo pelas narinas num longo suspiro e deixou que a cinza que lhe caísse distraída na saia imaculadamente branca. E pensou que da próxima vez teria de responder com um sinónimo desconhecido de solidão.

8 Comentários:

Luísa disse...

A palavra «ósculo» soa mal, mas sabe bem, Cristina. Mas nunca uma história sobre a palavra «ósculo» ilustrou melhor o sentido profundo dessa outra palavra - que soa bem, mas sabe mal - «solidão». Parabéns! :-)

Laura Ferreira disse...

Belíssimo, sim, Cristina. E desta vez, tão musical!

CNS disse...

Mar Arável disse:

Ósculo?

Adelaide?

Coisa linda

mfc disse...

A solidão é a ausência de nós que se dissipa com um beijo.... perdão, com um ósculo!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Há quanto tempo não lia´"ósculo" . E gosto muito da palavra...

tiaselma.com disse...

Que eu jamais me lembre de um ósculo.
Quero antes a lembrança de beijos, beijos, beijos.

Mais sonoro, doce... São duras as proparoxítonas.

Beijos!

Graça Pires disse...

Uma beleza de texto!
Beijos.

gabriela r martins disse...

se bem que arredada dos comentários ,não tenho estado indiferente aos blogues que ,diariamente ,visito .bebo a experiência do belo e quedo.me em silêncio ( forma mais elevada de admirá.lo )

hoje ,não resisti .comento e deixo.te



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um beijo