Dez minutos antes de sair para o café, abria o dicionário de capa verde numa página nova e decorava as palavras que lhe pareciam ser as mais difíceis. Passava os dedos por cima de cada uma daquelas linhas escritas em itálico, com o mesmo cuidado com que punha batom.Palavras que depois rolaria lentamente na sua boca de lábios finos, entre duas baforadas de cigarro. O silêncio dos outros, que ela confundia com espanto, demorava o tempo do largar da cinza no cinzeiro de alumínio. Que ela fazia com um gesto seco e seguro. Naquele dia decorara ósculo. O mesmo que beijo. Pequena abertura, face externa dos grãos polínicos. Mas ninguém no café falava de botânica. Ela muito menos, que nem o nome das plantas que a mãe lhe trazia em vasos pequenos de barro, sabia. Mas um beijo, ou da ausência deles, toda a gente teria algo a dizer. E enquanto punha verniz numa malha aberta dos collants, imaginou-se a dizer lentamente: Ósculo. Gosto de ósculos. Gosto que me osculem. Um beijo, dito desta forma, por uma mulher de rosto transparente como o seu, perdia a viscosidade da solidão, ganhava a erudição de quem só não beijava porque não queria. Quando se sentou na segunda mesa a contar da janela, sorriu ao perceber que se falava exactamente de beijos. Dos beijos memoráveis. Ela acendeu o cigarro, deu a primeira baforada e disse: Já não me lembro do meu primeiro ósculo. Antes de soltar a segunda, sentiu que lhe seguravam levemente na mão. Um dos rostos da mesa aproximou-se do seu e disse-lhe baixinho: Tenho pena da tua solidão, Adelaide. Soltou o fumo pelas narinas num longo suspiro e deixou que a cinza que lhe caísse distraída na saia imaculadamente branca. E pensou que da próxima vez teria de responder com um sinónimo desconhecido de solidão.
8 Comentários:
A palavra «ósculo» soa mal, mas sabe bem, Cristina. Mas nunca uma história sobre a palavra «ósculo» ilustrou melhor o sentido profundo dessa outra palavra - que soa bem, mas sabe mal - «solidão». Parabéns! :-)
Belíssimo, sim, Cristina. E desta vez, tão musical!
Mar Arável disse:
Ósculo?
Adelaide?
Coisa linda
A solidão é a ausência de nós que se dissipa com um beijo.... perdão, com um ósculo!
Há quanto tempo não lia´"ósculo" . E gosto muito da palavra...
Que eu jamais me lembre de um ósculo.
Quero antes a lembrança de beijos, beijos, beijos.
Mais sonoro, doce... São duras as proparoxítonas.
Beijos!
Uma beleza de texto!
Beijos.
se bem que arredada dos comentários ,não tenho estado indiferente aos blogues que ,diariamente ,visito .bebo a experiência do belo e quedo.me em silêncio ( forma mais elevada de admirá.lo )
hoje ,não resisti .comento e deixo.te
.
um beijo
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