14 de Março de 2011

Caixa de Sândalo

Sempre que imaginava as coisas mais do que três vezes, elas aconteciam.  Acontecera com o vizinho. Que fora encontrado morto  na cama, de rosto retorcido pela dor. Tal e qual como ela o imaginara de todas as vezes  que ele, viscoso,  lhe respirara para cima do decote.  Acontecera com o irmão mais velho, de quem tantas vezes se imaginara despedir  no cais, partindo para a guerra de Angola.  Acontecera a filha, de quem sempre imaginou a cor de fogo do cabelo. Mas quando se imaginou nos braços  do professor de música que vivia no anexo dos pais,  ganhou medo aos seus próprios sonhos.  Porque havia sonhos que uma mulher casada com um homem de cabelos pretos, não podia  ter.  Por isso, passou a escreve-los em pequenos cartões sempre que se repetiam. Escrevia-os na sua letra miudinha,  guardava-os numa caixa de madeira perfumada, escondida num canto do guarda-fatos.  Lentamente, foi-se esvaziando dessas coisas que lhe perseguiam a imaginação, na mesma toada  que a sua vida se esvaziava de gente e de tempo.  E quando a solidão grisalha chegou, lembrou-se da caixa. Abriu-a e tirou o cartão que tanto vazio lhe trouxera. E leu-o três vezes. Ou talvez mais. Leu-o até ouvir a campainha da porta. Para onde correu. Onde ficou de pernas tremendo. E quando a abriu estendeu-lhe os braços. Ao professor de música que vivera no anexo dos pais. A quem o tempo não roubara o cabelo cor de fogo.

7 Comentários:

mfc disse...

A nossa mente é fantástica e eu consegui sonhar ao ler este teu mini conto!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Quantas mulheres ( e homens) não terão sonhos assim, que permanecem escondidos toda a vida?

augusto, um entre mil disse...

tenho uma pequena caixa de madeira de que muito gosto. pouco percebo de madeira mas sei que não é sândalo. srá de pinho, talvez.

mas talvez seja mágica.

vou experimentar...

tiaselma.com disse...

Ah, nossas caixas mágicas...

Selminha

Luísa disse...

Vou esperar para ver como se dá o Augusto com a sua caixa de pinho. Há aí umas ideias que também queria guardar para melhores dias... ;-D
Gostei muito, Cristina.

Mar Arável disse...

Vou já abrir a minha caixa

para a surpreender

em vida

Laura Ferreira disse...

Lindo, como sempre.