Sempre que via aquela fotografia comovia-se. Porque se imaginava assim, quando chegasse aquele tempo. O tempo das rugas das suas mãos encaixadas nas dele. E imaginava-lhe o rosto envelhecido juntamente com o seu. Mas agora, o tempo ainda esperava por passar, enquanto o via tocar o piano do salão. Porque o tempo parara naquela passagem de ano em casa do tio. Quando o conhecera. Parecia-lhe que fora ontem, tão nítidas eram as imagens e os cheiros. Olhos cerrados e dedos longos sobre o piano, ao fundo da sala, junto à janela que dava para o terraço. Ela, vestida com os seus grandes olhos azuis, achou que ele tinha umas mãos lindas. Sorriu. Apaixonara-se nessa noite por elas. E como ela queria que o amor por aquelas mãos durasse até ao tempo daquela fotografia. Suspirou. A música do piano subia as escadas. Ele estava lá em baixo, no salão. Levantou-se para escolher um lenço que lhe realçasse os olhos. Ele gostava de a ver de azul.
A porta do quarto abriu-se. Uma rapariga de olhos tão azuis quantos os seus entrou no quarto. Abraçou-a por de trás e sorriu-lhe pelo espelho. A pôr-se bonita, avó? Ela encolheu os ombros envergonhada. Gostava daquela rapariga de quem não se lembrava o nome e que lhe teimava em chamar avó. Ela, que ainda era tão nova, a ouvir a música do piano debruçada na varanda do terraço. Mas gostava dos seus olhos. Faziam-lhe lembrar os seus.
8 Comentários:
Lindo texto :) Muito familiar para mim.
Quando o passado nos invade e o vemos presente. Quando fazemos acontecer os nossos pensamentos...
Belo texto!
Beijo e bom ano, Cristina!
... é assim
quando se pensa azul.
Bj
Encontramos os nossos próprios espelhos a cada momento.
Um excelente 2011, Cristina.
Uma beleza! Somos o que queremos ser mesmo quando a realidade nos mostra a outra face...
Um beijo.
Vir aqui deixa-me sempre tão mais leve e feliz!
Como disse a Laura, também assim me sinto. Textos fantásticos, uma aula.
Beijocas!
Que ternura... tão bem (d)escrita!
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