2 de Janeiro de 2011

1 de Janeiro de 2011



Abro as janelas para deixar entrar a música. Do homem que morreu no dia em que fiz treze anos.  Morreu com uma daquelas doenças que prolongam a morte.  O sino do meio dia  sobrepõe-se aos acordes da balada. E à ultima badalada há um homem que pára a bicicleta do outro lado da rua. Tira a boina e espreita pela janela aberta, por onde escorre a música triste. Foi tratar dos animais, grita-lhe um dos homens que está encostado na parede do café. O que fica duas casas abaixo.  Não deve demorar. O homem da boina faz-lhe um gesto com o queixo e encosta-se ao parapeito para ouvir a música. Como se fosse ela quem morasse na casa de azulejos.  Um grupo de mulheres que se fizeram velhas de tanto esperar o tempo, descem a rua.  Trazem nas mãos os missais. Só uma não vem de preto. Veste um casaco roxo que mal lhe serve.  Uma delas olha-me,  por não me conhecer. Abranda o passo. Bom dia, diz-me. Bom ano, respondo-lhe. Sussurra qualquer coisa à do casaco roxo. Que, incomodada, gira sobre si para me ver. A balada cala-se e o dono da casa bate no ombro do homem da bicicleta. Traz na mão um velho balde de tinta onde carrega a ração dos animais. Ainda tens este disco? O homem do balde ri-se enquanto coça a nuca. O tempo escoa-se de forma diferente consoante as mãos. Há mãos que o tornam espesso, tão espesso que lhes sufoca as vidas.

8 Comentários:

hfm disse...

A depuração das palavras encantou-me.

Graça Pires disse...

Voltaste com um texto excelente.
"O tempo escoa-se de forma diferente consoante as mãos. Há mãos que o tornam espesso, tão espesso que lhes sufoca as vidas"
Belíssimo!
Um beijo e que tenhas um Bom 2011.

Mar Arável disse...

A complexidade do que é simples

escreve-se assim
para que tudo fique mais claro

Muito bom

© Piedade Araújo Sol disse...

profundo e que me tocou. ele também se foi no dia 01 de Janeiro.

um bom ano de 2011 para ti.

beij

Paula Crespo disse...

Gosto e saliento em particular a última frase. Na realidade, o tempo é aquilo que dele fizermos; resta-nos ter ou não a capacidade de o fazer bem feito.

tiaselma.com disse...

Como sempre, um primor de prosa.

Muita inspiração e um fantástico 2011, Cris!

Beijocas!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Que belo texto para iniciar o ano, Cristina.
Feliz 2011

Laura Ferreira disse...

Lindo texto, Cristina.
Já tinha saudades das tuas palavras.
Bom ano.