Abro as janelas para deixar entrar a música. Do homem que morreu no dia em que fiz treze anos. Morreu com uma daquelas doenças que prolongam a morte. O sino do meio dia sobrepõe-se aos acordes da balada. E à ultima badalada há um homem que pára a bicicleta do outro lado da rua. Tira a boina e espreita pela janela aberta, por onde escorre a música triste. Foi tratar dos animais, grita-lhe um dos homens que está encostado na parede do café. O que fica duas casas abaixo. Não deve demorar. O homem da boina faz-lhe um gesto com o queixo e encosta-se ao parapeito para ouvir a música. Como se fosse ela quem morasse na casa de azulejos. Um grupo de mulheres que se fizeram velhas de tanto esperar o tempo, descem a rua. Trazem nas mãos os missais. Só uma não vem de preto. Veste um casaco roxo que mal lhe serve. Uma delas olha-me, por não me conhecer. Abranda o passo. Bom dia, diz-me. Bom ano, respondo-lhe. Sussurra qualquer coisa à do casaco roxo. Que, incomodada, gira sobre si para me ver. A balada cala-se e o dono da casa bate no ombro do homem da bicicleta. Traz na mão um velho balde de tinta onde carrega a ração dos animais. Ainda tens este disco? O homem do balde ri-se enquanto coça a nuca. O tempo escoa-se de forma diferente consoante as mãos. Há mãos que o tornam espesso, tão espesso que lhes sufoca as vidas.
8 Comentários:
A depuração das palavras encantou-me.
Voltaste com um texto excelente.
"O tempo escoa-se de forma diferente consoante as mãos. Há mãos que o tornam espesso, tão espesso que lhes sufoca as vidas"
Belíssimo!
Um beijo e que tenhas um Bom 2011.
A complexidade do que é simples
escreve-se assim
para que tudo fique mais claro
Muito bom
profundo e que me tocou. ele também se foi no dia 01 de Janeiro.
um bom ano de 2011 para ti.
beij
Gosto e saliento em particular a última frase. Na realidade, o tempo é aquilo que dele fizermos; resta-nos ter ou não a capacidade de o fazer bem feito.
Como sempre, um primor de prosa.
Muita inspiração e um fantástico 2011, Cris!
Beijocas!
Que belo texto para iniciar o ano, Cristina.
Feliz 2011
Lindo texto, Cristina.
Já tinha saudades das tuas palavras.
Bom ano.
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