26 de Outubro de 2010

Algés

A oficina ficava perto da estação de comboio. De manhã, ele abria com as suas mãos de quatro dedos, as portas azuis, que deixavam cair mais umas escamas de tinta na calçada. Varria as aparas de madeira e trazia as cadeiras envernizadas para o alpendre. Ficava uns instantes à porta e acenava ao cigano que no Inverno vendia chapéus de chuva à entrada do túnel para a estação. No Verão vendia bóias e chapéus de sol. Adeus Alfredo, dizia-lhe. O cigano sorria e respondia. Já aí vou. O marceneiro ficava uns instantes à porta, a ver as pessoas a entrarem apressadas no túnel da estação. De onde se ouvia a musica desafinada do cego do acordeão. Os dias delas corriam mais depressa que os seus. Que se arrastavam por entre o cheiro pegajoso de verniz e as aparas que se acumulavam lentas, no chão da oficina. Depois do último comboio da manhã o cigano chamava-o à porta com duas cervejas na mão. Sentavam-se nas cadeiras do alpendre, bebendo as cervejas pelo gargalo. Em silêncio. Até que o marceneiro apontava para a marisqueira do outro lado da rua e dizia-lhe. Quando vender uma mobília de quarto pago a uma mulher e vou ali jantar. Nunca comi lagosta, nem sei a que sabe, dizia-lhe o cigano. O marceneiro suspirava e punha a garrafa vazia debaixo da cadeira. E eu ainda não sei a que sabe o corpo de uma mulher.

18 de Outubro de 2010

Wise up



O miúdo esfrega a capota do carro com uma escova velha. A mãe está sentada no muro, a pintar as unhas dos pés. Pinta-as lentamente. Sempre que termina uma, volta a agitar o frasco do verniz, enquanto que deixa o olhos escorrer juntamente com a espuma no alcatrão. Canta baixinho o refrão que sai do radio. Tem uma voz nova demais para rosto de quarenta anos. O miúdo abre a porta do condutor e hesita. Ele deixou aqui o isqueiro, diz. Olham-se por um momento. Ela suspira e volta a passar o pincel do verniz pelas unhas do pés. Lentamente. Ele desliga o rádio e insiste. Está aqui o isqueiro dele. E morde os lábios que tremem. Ela continua a cantar o refrão da música que já não ouve. Encolhe os ombros. Não se quer lembrar. Nem saber se ele terá fumado um cigarro antes de apertar o gatilho e estoirar a vida, no banco do condutor. Encolhe de novo os ombros sem levantar o olhar dos dedos dos pés. O miúdo tira a espuma do carro com a mangueira. O som forte da água abafa os nomes que chama ao pai. E também abafa o choro de raiva que lhe pinga no queixo. Atira a mangueira para o chão. A mãe assusta-se. Porque é fizeste isso? Grita. Há uma vizinha que vem à janela. A mesma que no enterro, de braços cruzados repetia “foram as dívidas”. O miúdo fecha a torneira e responde. A porta do condutor estava mal fechada. Ela levanta-se sem desviar o olhar do carro. Por tua causa esborratei as unhas todas. Agora tenho de as pintar outra vez.

15 de Outubro de 2010

Hoje  o meu deserto esteve por Aqui. Obrigada Delito.

6 de Outubro de 2010

Sara

Sentam-se no café em grupos de três. Dez minutos depois da missa. Todos os Domingos. Mesmo nos de chuva como o de hoje. Pedem galões e bolos. Falam dos outros. Principalmentos dos ausentes. Uma delas, usa uma franja ridícula e muitas pulseiras de ouro. Tem trejeitos de superioridade de quem fez um curso em Lisboa. E opinião sobre toda gente assim como muitas certezas sobre o mundo. Volta e meia interrompe o seu quase-raciocínio para chamar a atenção do filho que arrasta uma cadeira pelo café. Está quieto, já te disse. Uma das outras mulheres, suspira. Tem um rosto baço e doente. Aparenta ser mais velha do que é, como se tempo a engelhasse por dentro. Evita o miúdo com o olhar, porque não consegue ter filhos. Pelo menos é o que repete todos os domingos. Os tratamentos não funcionam. O problema é dele. Sussurra de olhos no chão. A mulher da franja diz-lhe, na sua voz esganiçada, que mude de médico. Os olhares das mesas em redor pousam-se nelas e o rosto baço da mulher ruboriza-se. A terceira mulher conta uma estória de infertilidade que terminou em divórcio. É uma daquelas pessoas que têm de tocar nos outros enquanto falam. A outra, a da franja, reage com espanto porque não conhece o casal da estória. Pergunta onde moravam. Quem eram os pais. Os olhos da mulher de rosto baço ficam vermelhos de lágrimas e finge ler as letras grandes do meu jornal. Giro-o um pouco para que o possa ver melhor. Está bom assim, obrigada. Sorri. Ah, já sei quem são, diz a mulher da franja. A mulher do rosto baço encolhe os ombros enquanto me sorri de novo. Há uma certa cumplicidade com as pessoas que desconhecemos. Um encher de ar no peito que não nos chama pelo nome próprio.