18 de Outubro de 2010

Wise up



O miúdo esfrega a capota do carro com uma escova velha. A mãe está sentada no muro, a pintar as unhas dos pés. Pinta-as lentamente. Sempre que termina uma, volta a agitar o frasco do verniz, enquanto que deixa o olhos escorrer juntamente com a espuma no alcatrão. Canta baixinho o refrão que sai do radio. Tem uma voz nova demais para rosto de quarenta anos. O miúdo abre a porta do condutor e hesita. Ele deixou aqui o isqueiro, diz. Olham-se por um momento. Ela suspira e volta a passar o pincel do verniz pelas unhas do pés. Lentamente. Ele desliga o rádio e insiste. Está aqui o isqueiro dele. E morde os lábios que tremem. Ela continua a cantar o refrão da música que já não ouve. Encolhe os ombros. Não se quer lembrar. Nem saber se ele terá fumado um cigarro antes de apertar o gatilho e estoirar a vida, no banco do condutor. Encolhe de novo os ombros sem levantar o olhar dos dedos dos pés. O miúdo tira a espuma do carro com a mangueira. O som forte da água abafa os nomes que chama ao pai. E também abafa o choro de raiva que lhe pinga no queixo. Atira a mangueira para o chão. A mãe assusta-se. Porque é fizeste isso? Grita. Há uma vizinha que vem à janela. A mesma que no enterro, de braços cruzados repetia “foram as dívidas”. O miúdo fecha a torneira e responde. A porta do condutor estava mal fechada. Ela levanta-se sem desviar o olhar do carro. Por tua causa esborratei as unhas todas. Agora tenho de as pintar outra vez.

7 Comentários:

Leonor disse...

Cristina, que texto magnífico sobre a radicalidade da tristeza, que tudo tolhe e o desespero. Muitos parabéns.

© Piedade Araújo Sol disse...

comovente!

deixo-te um beij

Luis Eme disse...

a repetição da indiferença. a infifernça da repetição.

beijinho Cristina

tiaselma.com disse...

Quando rotina e indiferença sobrepujam vida...

Beijocas!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Ontem deixei aqui um comentário,mas não entrou,certamente porque sou distraído e não reparei que tinh cometido um erro.
Dizia, nesse comentário, que é bom regressar a casa e constatar que continua a ser um prazer frequentar este Deserto. Bem haja!

Marcos Fabio de Faria disse...

Muito lindo o seu texto. E saber que o encontrei, por acaso, em outro sitio, me faz ficar abestalhado com as possibilidades da internet.

Patti disse...

Os detalhes macabros da vida.