Sentam-se no café em grupos de três. Dez minutos depois da missa. Todos os Domingos. Mesmo nos de chuva como o de hoje. Pedem galões e bolos. Falam dos outros. Principalmentos dos ausentes. Uma delas, usa uma franja ridícula e muitas pulseiras de ouro. Tem trejeitos de superioridade de quem fez um curso em Lisboa. E opinião sobre toda gente assim como muitas certezas sobre o mundo. Volta e meia interrompe o seu quase-raciocínio para chamar a atenção do filho que arrasta uma cadeira pelo café. Está quieto, já te disse. Uma das outras mulheres, suspira. Tem um rosto baço e doente. Aparenta ser mais velha do que é, como se tempo a engelhasse por dentro. Evita o miúdo com o olhar, porque não consegue ter filhos. Pelo menos é o que repete todos os domingos. Os tratamentos não funcionam. O problema é dele. Sussurra de olhos no chão. A mulher da franja diz-lhe, na sua voz esganiçada, que mude de médico. Os olhares das mesas em redor pousam-se nelas e o rosto baço da mulher ruboriza-se. A terceira mulher conta uma estória de infertilidade que terminou em divórcio. É uma daquelas pessoas que têm de tocar nos outros enquanto falam. A outra, a da franja, reage com espanto porque não conhece o casal da estória. Pergunta onde moravam. Quem eram os pais. Os olhos da mulher de rosto baço ficam vermelhos de lágrimas e finge ler as letras grandes do meu jornal. Giro-o um pouco para que o possa ver melhor. Está bom assim, obrigada. Sorri. Ah, já sei quem são, diz a mulher da franja. A mulher do rosto baço encolhe os ombros enquanto me sorri de novo. Há uma certa cumplicidade com as pessoas que desconhecemos. Um encher de ar no peito que não nos chama pelo nome próprio.
3 Comentários:
É mesmo assim, Cristina. Quando conhecemos as pessoas, não tomamos tão rapidamente partido ou não estabelecemos, tão facilmente, cumplicidades. Talvez porque sabemos, em concreto, que todas elas sofrem, cada uma a seu modo.
Nas esplanadas
até de olhos trocados
somos estrábicos
nos ouvidos
"Há uma certa cumplicidade com as pessoas que desconhecemos."
Talvez porque haja menos intolerância, cobrança. Um descompromisso...
Beijocas!
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