26 de Outubro de 2010

Algés

A oficina ficava perto da estação de comboio. De manhã, ele abria com as suas mãos de quatro dedos, as portas azuis, que deixavam cair mais umas escamas de tinta na calçada. Varria as aparas de madeira e trazia as cadeiras envernizadas para o alpendre. Ficava uns instantes à porta e acenava ao cigano que no Inverno vendia chapéus de chuva à entrada do túnel para a estação. No Verão vendia bóias e chapéus de sol. Adeus Alfredo, dizia-lhe. O cigano sorria e respondia. Já aí vou. O marceneiro ficava uns instantes à porta, a ver as pessoas a entrarem apressadas no túnel da estação. De onde se ouvia a musica desafinada do cego do acordeão. Os dias delas corriam mais depressa que os seus. Que se arrastavam por entre o cheiro pegajoso de verniz e as aparas que se acumulavam lentas, no chão da oficina. Depois do último comboio da manhã o cigano chamava-o à porta com duas cervejas na mão. Sentavam-se nas cadeiras do alpendre, bebendo as cervejas pelo gargalo. Em silêncio. Até que o marceneiro apontava para a marisqueira do outro lado da rua e dizia-lhe. Quando vender uma mobília de quarto pago a uma mulher e vou ali jantar. Nunca comi lagosta, nem sei a que sabe, dizia-lhe o cigano. O marceneiro suspirava e punha a garrafa vazia debaixo da cadeira. E eu ainda não sei a que sabe o corpo de uma mulher.

14 Comentários:

Maria disse...

Nem sei como te comentar.
Quando desamor por aí e por aqui, tão perto.

Beijo, Cristina.

Mar Arável disse...

As coisas que eles dizem não saber

hfm disse...

Quando as palavras nos falam.

Laura Ferreira disse...

Belíssimo, Cristina!

tiaselma.com disse...

E seu texto sabe a vida...

Beijoca!

Luis Eme disse...

pobrezas e ausências...

beijinho Cristina

Graça Pires disse...

Belíssima história de vida. A sensibilidade é o seu ponto forte. Gostei imenso.
Um beijo.

© Piedade Araújo Sol disse...

histórias de vidas soltas, que tão bem sabes narrar.

um beij Cris

mdsol disse...

Gostei muito de ler. Além da "história", fez-me rever o local da "acção". (morei por aí uns anos).

:)))

Paula Crespo disse...

É uma vida em tom cinzento e o texto revela-o bem. Bem conseguido!

Dulce disse...

Quanto desconsolo...
Lindo seu texto.
bjs.

tiaselma.com disse...

Minha doce amiga, um Natal abençoado para você e sua família!

Beijocas!

Nilson Barcelli disse...

Excelente, gostei mesmo das tuas palavras.
Querida amiga, desejo-te um Natal muito feliz, na companhia dos que mais amas.
Beijos.

Luis Eme disse...

Boas Festas, Cristina.

beijinhos