23 de Setembro de 2010

Chá de Menta em Jerusalém

Posso sentar-me aqui? Na sua mesa? Posso sentar-me aqui, mesmo em frente a esses seus olhos perdidos que me parecem verdes. Ou é esta luz desmaiada de fim de tarde que os fazem desta cor? Posso sentar-me aqui? E pedir um chá? Ou talvez não pedir nada. Ficar aqui a vê-la fumar esse cigarro. Lentamente enquanto finge não olhar para essas fotografias em cima da mesa. Essas que tirou a preto e branco. Porque toda a gente sabe que a preto e branco é mais dramático. Mais real. Para que o outro lado do mundo, que pensa ser dono da origem das cores, possa censurar o cinzento em que se tornou a morte. A que se repete em todos os cantos das horas que correm nestas ruas. Posso mesmo sentar-me aqui? Não se importa? Ainda bem que não. Os seus olhos, que me parecem verdes não se assustam comigo. Talvez já me tenha visto uma vez. Provavelmente mais. No instante que precede o fechar do diafragma. Sim, era mesmo eu. Conhece de cor o meu rosto sem rosto. Que se confunde com os vossos que se crêem vivos. Que a vida como a conhecem não passa de uma crença alimentada de fronteiras de medo. Gosto da indiferença com que me olha. Como se não me conseguisse ver. Aqui. Sentada. Mesmo à frente dos seus olhos que me parecem verdes. Sentada à espera que me faça aquela pergunta que lhe assalta o pensamento no instante imediatamente antes de adormecer. Nesse instante, quando lhe escorre a vida dos outros por entre os dedos da consciência. Pergunte-me .Agora.
“ E tu, Morte, acreditas em Deus?”


9/08/2008

5 Comentários:

Paula Crespo disse...

Lindo!...
Se ela acredita em Deus? Boa pergunta: francamente.............

Ana Paula Sena disse...

Cristina, continuas a escrever muito bem. Lindamente!

Deixo beijinhos.

tiaselma.com disse...

Nossa, fiquei arrepiada... Fantástico!

Beijocas.

s. disse...

Está sublime. Parabéns.

Mar Arável disse...

Excelente

a preto e branco

nos olhos verdes