26 de Abril de 2010

Technicolor

Toca um bocadinho para o teu padrinho  ouvir. Todos os domingos o mesmo pedido. Toca aquela do Charlot. Ele sentava-se penosamente no banco forrado a veludo verde. Abria a tampa do piano e colocava a pauta  no suporte. Suspirava. Os dedos pesados nas teclas. O ritmo, esse corria-lhe nos olhos que teimavam em fugir para a janela do jardim. Ele tem ido às aulas de piano? Perguntava o padrinho. A mãe dizia que sim. Com o mesmo jeito no queixo com que mentia sobre a idade dele no combioio. Ainda tem seis. E o revisor rolava os olhos desconfiados pela sua altura de oito anos. Sim, vai todas as quintas-feiras. O padrinho acendia um charuto. Faz bem, tem de praticar.  Por detrás dos acordes desafinados ele via o filme da matiné de domingo. Ó mãe, eu não gosto de tocar piano. Eu gosto é de cinema. A mãe puxava-lhe as meias da farda até ao joelho. O padrinho faz gosto nisso. Por isso te deu o piano. Um acorde fora de tom. Tens de praticar mais, menino. A voz de charuto  espalhava-se como fumo pela sala. E vê se aprendes outras musicas que não estas do Charlot.  São as manias dele do cinema. Justificava a mãe como que a pedir desculpa. Ele mordia os lábios e desafinava de novo. É a musica do Luzes da Ribalta. E toda a gente que gosta de cinema já viu o filme. Pensava. Que passava hoje de novo nos bombeiros.  Ó mãe eu gosto é de cinema. Quando crescer quero  ser realizador. E colocava os dedos em quadrado. O padrinho faz gosto no piano. E ele nem gosta de filmes. Deixa-te dessas ideias. O último acorde. Desafinado. O padrinho acenava em aprovação. A mãe sorria de alivio. E parecia-lhe que a sala escurecia. O sofá com mãe e o padrinho ficava a preto e branco. Tenho de lhe comprar um metrómeno. Dizia  enquanto acendia outro charuto. Lá fora, o mundo corria a cores.

22 Comentários:

Paula Crespo disse...

Lá fora, o mundo corria a cores. Pena que lá dentro fosse cinzento. E que um menino de apenas oito anos descorasse. Era como antigamente, quando se enviavam os meninos para os seminários, sempre custeados por uma madrinha ou padrinho: era o preço da sobrevivência.

Elipse disse...

histórias de obediência, que deveriam acabar sempre em rebeldia. Ou não?

Voltaste para ficar?

bgda :)

Luísa disse...

Muito bom, este «filme», Cristina. E também gosto do novo «cenário» do Deserto. :-)

CNS disse...

Paula:

Mas por vezes é no preto e branco que reparamos em sombras que se esquecem nas cores ...


Elipse:

Sim. Para ficar :))


Luisa:

Ainda bem que gostou, Luisa. Do filme e do novo cenário do meu deserto.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Que bom tê-la de volta com as suas belas histórias e este oásis renovado.

Mar Arável disse...

Um dia seremos de novo

crianças

sempre em ABRIL

CNS disse...

Carlos:

Obrigada. Sabe bem voltar a atravessar o meu deserto.


Mar arável:

Desde que nunca esqueçamos que o fomos.

tiaselma.com disse...

Cris, seu texto mexeu com grandes lembranças! Durante anos, o metrônomo sobre o piano marcou o ritmo de minhas tardes, de minha vida...

Beijocas.

CNS disse...

A memória pode ser a caixa de todas as estórias.Das nossas e das dos outros.

Um beijo, querida Selma

Maria disse...

Conheço bem esta 'educação'...
Também aqui a Liberdade foi conquistada!

Um abraço.
(o teu deserto já não tem areia...)

CNS disse...

Talvez esta educação não pertença assim tanto ao passado.Infelizmente.


Sim, já não tem areia. Mas o chão é mesmo, Maria


um beijo

Claudia Sousa Dias disse...

:-) história ternurente...


csd

CNS disse...

:)


bj, Claudia

© Piedade Araújo Sol disse...

sei que me repito, mas tens uma facilidade enorme para escrever narrativas.

um belissimo texto que fecha com chave de ouro com a seguinte frase:

Lá fora, o mundo corria a cores.

um beij

CNS disse...

Obrigada, Piedade :)

Teresa disse...

Cristina
Cheguei por sugestão do Rochedo e gostei muito dos seus textos. Escreve muito bem. Acho que vou armar uma tenda por aqui.
Bjs

CNS disse...

Teresa:

Seja bem vinda. :)

ana v. disse...

Puro cinema, este texto. Excelente.

Graça Pires disse...

Quando voltarmos a ser crianças não deixaremos que o padrinho escolha por nós...
Belo texto!
Um beijo.

CNS disse...

Ana:

:)). Nem sabe como esse comentário me deixa feliz.

abraço


Graça:

Não. Não o devemos fazer.
Obrigada

Laura disse...

Já tinha saudades desta escrita.
um beijo.

CNS disse...

:))

beijinho, Laura