
Foto: Shannon Richardson

Às terças levava-lhe as camisas passadas e arrumava-lhe a casa. Isto porque ficara com as manhãs de terças livres desde que o senhor do 1º direito fechara a livraria. Só se for mesmo às terças de manhã. Dissera-lhe, sentada num cadeirão de pau preto defronte da janela que dava para a varanda. E franzia os olhos para lhe tentar ver o rosto em contra-luz. Pois, só mesmo as terças de manhã. Repetira de mãos cruzadas sobre a fazenda da saia. Nos outros dias não pode mesmo ser. Às segundas vou à senhora do rés-do-chão esquerdo. E tem de de ser o dia todo. Não que a senhora seja desmazelada. Muito pelo contrário. Muito séria e limpinha. Mas tem a mãe incapacitada. Bem, não é realmente incapacitada, é idosa. Muito idosa. E tenho de lá ir três vezes por semana, para a ajudar com a muda da cama. E depois a senhora vive sozinha. Com a mãe, mas essa nem conta. Coitada o que lhe fazia falta era um homem. Quero eu dizer, para lhe dar apoio. Credo, que eu não estava a insinuar mais nada. Que com aquela idade já não deve estar para isso. Para ter um homem. Percebe? Também isso não interessa. O que lhe quero dizer é que segundas, quartas e sextas, mas as sextas só de tarde, passo-as lá. A ajudá-la com a mãe. Porque a casa, está muito limpinha. Quase não precisa que eu lhe faça nada. Os outros dias? Olhe, as sextas de manhã, vou ao rapaz do terceiro direito. Esse sinceramente nem sei o que lá vou fazer, porque aquilo são livros ao monte por todos os cantos. Uma pessoa quer limpar e o rapaz não deixa mexer em nada. Fica ali, nervoso a limpar os óculos a olhar para mim enquanto lhe aspiro o chão. Sim porque ele não deve ter emprego certo senão não passava as manhãs de sextas ali parado a olhar para mim. Uma pessoa nem se sente à vontade. E depois tenho a terças à tarde na senhora do rés-do-chão direito, que faz bolos para fora. Para dizer a verdade nem é a tarde toda. E também não é todas as semanas, que a senhora coitada não tem posses para isso. O marido não tem lá grande emprego e aquilo dos bolos sabe como é. Não dá nada. E coitada tem lá um fardo de um filho que cá para mim é drogado. Volta e meia entra em casa manhã dentro com umas olheiras até ao queixo. Só pode ser droga. E é como lhe digo vou lá semana sim, semana não. O que me dá jeito, que nas semanas em que fico com a terça à tarde livre, aproveito para limpara minha casa, que como não é diferente das outras também se suja. Por isso é como lhe digo só pode mesmo ser à terça de manhã. As quintas? As quintas fico em casa a passar a roupa ao peso. Se quiser posso levar a sua também. Vive sozinho não vive? Pois, então também são meia dúzia de peças e passa-se num instante. Não se é esqueça de me dar as cruzetas. Fica então terça. Ora bem. É como lhe digo teve sorte. Muita sorte. Se o senhor do primeiro direito não tivesse fechado a loja não lhe conseguia valer. Olhe, era capaz de mandar cá a minha cunhada. Mas ela é uma rapariga nova, e as novas sabe como é, limpam tudo por cima da rama e nem querem aprender como se faz.
