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Tenho saudades do tempo em que morava num prédio. Das vidas empilhadas em betão. Das luzes que me iluminavam quando me debruçava sobre a varanda. A luz ténue do segundo direito, onde morava um velhote de quem nunca soube nome. Vestia sempre o mesmo casaco de xadrez de gola coçada. Tinha um gato de pelagem tão coçada como a gola. E trazia-lhe todos os dias uma latinha de comida de alumínio dourado, juntamente com o jornal diário. Quando a luz se acendia de noite, imaginava-o, sentado num sofá de cor já gasta, com o jornal resvalado nos joelhos. E o gato. De pelagem velha e amarela, aos seus pés. Havia também a luz do rés-do-chão direito. A mulher abria a janela depois do jantar e sacudia a toalha. Cantarolava sempre a mesma canção. Depois suspirava e por um instante ficava imóvel com a toalha esquecida por entre as mãos. Lembro-me de uma toalha com pequenos galos vermelhos, amarfanhada entre umas mãos de unhas roídas. Onde ela um dia limpou os olhos esborratados de chorar. Às sextas à noite a luz do terceiro esquerdo apagava-se mais cedo. Nessa casa vivia uma rapariga solteira. De rosto magro e anguloso. Tinha uns olhos grandes delineados de uma forma vulgar com lápis azul. Talvez para condizer com a infeliz franja escorrida que lhe cobria a testa cheia de acne. Saía com as suas botas de vinil. Um dia descobri que distribuía mantas e sopa todas sextas à noite, aos sem abrigo. Tenho saudades do tempo em que morava no prédio cheio de gente de quem nunca soube o nome. Mas que apareciam à janela sacudindo as migalhas das suas estórias. Hoje da minha varanda só sinto o cheiro dos toros de azinho queimado nas lareiras feitas em série revestidas a moleanos. E oiço o ladrar dos cães quando as luzes das casas se apagam. E sinto saudades.
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11 Comentários:
memórias......"migalhas" que se vão transformando naquilo que fomos sem ,na altura ,nos apercebermos
ou
a nostalgia dos verdes anos....
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um beijo ,Cris
O seu texto, apesar da sua beleza, ão me convence, Cristina. É que ele há vizinhanças e vizinhanças! ;-)
Um texto carregado de significado. A nostalgia da aldeia que todos construimos dentro da cidade. Para lá do prédio, o café onde o empregado (ou o dono) nos trata pelo nome e sabe sempre o que tomamos, a mercearia ou o mini mercado e... pouco mais. Nas casas com lareiras revestidas a moleanos, falta a gente em redor. Gostei muito do seu texto.
Há prédios onde vivem pessoas, ruas onde vivem pessoas. Há outras onde apenas vive gente...
As minhas saudades vêm do cheio a pão quente cozido em forno de lenha, do cheiro das farinhas e das ramas de pinheiros com que se aquecia o forno...
Beijo
Fantástica a forma cinematográfica com que levas a câmera/olhar através da cena, iluminando sequencialmente os personagens.
Hugo
Gosto como percorres as gentes e as memórias.
Beijinhos CNS
eu também tenho saudades... recordo aromas, afagos, vozes e muitas pessoas de quem lembro o nome.
tinha perdido a morada...
foi bom voltar hoje e sentir o cheiro do azinho, tão pouco comum por estas bandas.
um abraço
Um panorama de vidas e de estórias.
Gostei muito do texto. Como sempre, aliás.
gosto sempre a maneira como escreves e como consegues criar um realismo tao bom nos teus textos.
grata pela partilha.
bom fim de semana!
um beij
Eu gosto do que sou e tenho
para recordar o que fiz melhor
no tempo certo
Uma coisa é certa
não existem amanhãs
sem memórias
Se me é permitido direi
que tenho saudades do que ainda
não aconteceu e já sonhei
Belo texto como sempre
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