11 de Novembro de 2009

Mansarda (I)

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Tenho saudades do tempo em que morava num prédio. Das vidas empilhadas em betão. Das luzes que me iluminavam quando me debruçava sobre a varanda. A luz ténue do segundo direito, onde morava um velhote de quem nunca soube nome. Vestia sempre o mesmo casaco de xadrez de gola coçada. Tinha um gato de pelagem tão coçada como a gola. E trazia-lhe todos os dias uma latinha de comida de alumínio dourado, juntamente com o jornal diário. Quando a luz se acendia de noite, imaginava-o, sentado num sofá de cor já gasta, com o jornal resvalado nos joelhos. E o gato. De pelagem velha e amarela, aos seus pés. Havia também a luz do rés-do-chão direito. A mulher abria a janela depois do jantar e sacudia a toalha. Cantarolava sempre a mesma canção. Depois suspirava e por um instante ficava imóvel com a toalha esquecida por entre as mãos. Lembro-me de uma toalha com pequenos galos vermelhos, amarfanhada entre umas mãos de unhas roídas. Onde ela um dia limpou os olhos esborratados de chorar. Às sextas à noite a luz do terceiro esquerdo apagava-se mais cedo. Nessa casa vivia uma rapariga solteira. De rosto magro e anguloso. Tinha uns olhos grandes delineados de uma forma vulgar com lápis azul. Talvez para condizer com a infeliz franja escorrida que lhe cobria a testa cheia de acne. Saía com as suas botas de vinil. Um dia descobri que distribuía mantas e sopa todas sextas à noite, aos sem abrigo.
Tenho saudades do tempo em que morava no prédio cheio de gente de quem nunca soube o nome. Mas que apareciam à janela sacudindo as migalhas das suas estórias. Hoje da minha varanda só sinto o cheiro dos toros de azinho queimado nas lareiras feitas em série revestidas a moleanos. E oiço o ladrar dos cães quando as luzes das casas se apagam. E sinto saudades.
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11 Comentários:

gabriela rocha martins disse...

memórias......"migalhas" que se vão transformando naquilo que fomos sem ,na altura ,nos apercebermos

ou

a nostalgia dos verdes anos....



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um beijo ,Cris

Luísa disse...
Esta mensagem foi removida pelo autor.
Luísa disse...

O seu texto, apesar da sua beleza, ão me convence, Cristina. É que ele há vizinhanças e vizinhanças! ;-)

Paulo disse...

Um texto carregado de significado. A nostalgia da aldeia que todos construimos dentro da cidade. Para lá do prédio, o café onde o empregado (ou o dono) nos trata pelo nome e sabe sempre o que tomamos, a mercearia ou o mini mercado e... pouco mais. Nas casas com lareiras revestidas a moleanos, falta a gente em redor. Gostei muito do seu texto.

Maria disse...

Há prédios onde vivem pessoas, ruas onde vivem pessoas. Há outras onde apenas vive gente...
As minhas saudades vêm do cheio a pão quente cozido em forno de lenha, do cheiro das farinhas e das ramas de pinheiros com que se aquecia o forno...

Beijo

Anónimo disse...

Fantástica a forma cinematográfica com que levas a câmera/olhar através da cena, iluminando sequencialmente os personagens.

Hugo

Spectrum disse...

Gosto como percorres as gentes e as memórias.
Beijinhos CNS

pin gente disse...

eu também tenho saudades... recordo aromas, afagos, vozes e muitas pessoas de quem lembro o nome.

tinha perdido a morada...
foi bom voltar hoje e sentir o cheiro do azinho, tão pouco comum por estas bandas.

um abraço

Espanta Sono disse...

Um panorama de vidas e de estórias.
Gostei muito do texto. Como sempre, aliás.

© Piedade Araújo Sol disse...

gosto sempre a maneira como escreves e como consegues criar um realismo tao bom nos teus textos.

grata pela partilha.

bom fim de semana!

um beij

Mar Arável disse...

Eu gosto do que sou e tenho

para recordar o que fiz melhor

no tempo certo

Uma coisa é certa

não existem amanhãs

sem memórias

Se me é permitido direi

que tenho saudades do que ainda

não aconteceu e já sonhei

Belo texto como sempre