O homem está sentado na soleira da porta. No banco de pedra alisada pelo cansaço e esboroada nos cantos pelo tempo. Está sentado e olha a curva da rua que se esvanece entre duas casas mais velhas que ele. A curva de terra batida já lá estava quando ele era criança. Repousa o queixo salpicado pelo áspero da barba branca no cajado retorcido. Olha a curva de terra batida. Não sopra vento. Nem o vento quente das tardes de Junho. A poeira da pequena azinhaga está assente. E o homem espera. Sentado no banco talhado na parede caiada. Olha para as botas que pisam as manchas de pó azul. O calor da tarde enche o vazio deixado pelas sombras que começam agora a crescer. O cheiro do pó seco começa a dar lugar aos cheiros azulados da noite. Os olhos pousam de novo no caminho. Semicerram-se e o velho escuta o som seco dos passos do filho, dois instantes antes de dobrar a curva poeirenta. De costas vergadas sob o peso do saco de lona azul desbotado. Esvaziado de esperança. As costas vergadas que dobraram a curva sem se voltar. Para que os olhos do velho, resguardados pelos mãos calejadas em pala, não vissem as lágrimas envergonhadas que pingavam no rosto. As mesmas mãos calejadas estão de novo no rosto do velho. Pareceu-lhe ouvir um barulho de motor. Mas a curva só lhe trás a s sombras que crescem. E o rosto do filho da primeira vez que regressou. Soberbo na sua farda de alferes, de arma a tiracolo e livro vermelho debaixo do braço. E o velho saco de lona azul, cheio de liberdade e mudanças. O filho quis que os homens da aldeia escutassem o que a cidade grande lhe tinha ensinado. E quis que escutassem a boa nova, por entre os copos de tinto que lhes pagou na taberna. E eles escutaram. O filho quis que eles se revoltassem. E eles revoltaram-se. Ensinou-lhes uma palavra nova: igualdade. Que eles repetiram em voz alta. Depois regressou à cidade grande com o saco azul desbotado cheio de promessas de regresso e a arma a tiracolo. E não regressou mais. Até àquela tarde. Que o velho vê crescer com a mesma lentidão com que a saudade se impregnou nas paredes caiadas. Tira o velho relógio de pulso do bolso da camisa preta. Os ponteiros parados. Ao sabor do tempo que corre para cá da curva de terra batida. Mas ele sabe que está quase. Que o tempo de regresso não se mede. Chega. Dobrando as curvas das azinhagas que ficam para trás das costas. O cheiro da ervas secas escorre por entre as sombras empoeiradas de azul e branco. E o som do carro que se aproxima. O velho levanta-se. As pernas tremem de saudade e de velhice. A mão em pala. O resto de sol que ainda lhe arde no corpo vestido de negro. O som mais próximo. O azul do carro grande vislumbra-se lento na curva da azinhaga. O sorriso rasga-se nas rugas curtidas pelo sol. O carro pára e o filho sai. Acena-lhe. As costas erguidas. O tempo retoma a sua toada no imenso instante do abraço. O filho estende-lhe o saco já quase sem cor. Já não precisa dele. Já nada desta nova vida cabe dentro dele. Só o tempo da curva de terra batida que se esmorece na noite. Por detrás das suas costas.
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14 Comentários:
Gosto muito desta escrita enxuta.
vários são os sentimentos que me invadem ao lê-la Cristina .. mas confesso que termino em Paz.
Como as suas personagens.
Um beijo e um Obrigada
Leio-te e vejo as imagens das tuas palavras. Pergunto-me se não terá ficado um sonho por cumprir... dentro do saco já quase sem cor...
Um beijo, Cristina
Mais uma vez a sinestesia, o discurso quase poético a envolver uma análise subtil, crítica e incisiva.
Hugo
mais uma excelente narrativa .nada a mais .nada a menos .uma paleta que ,a pouco e pouco ,se enche de magníficas cores
e
subscrevo a 100% o primeiro comentário a este "post"
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um beijo
muita poesia nesta tua prosa, azul...
bjs Cristina
Comovente. Poético. Lúcido.
Um beijo.
o saco perde a cor, já não há necessidade de procurar mais
A emoção destes reencontros está toda aí no seu belíssimo texto, Cristina. Sobretudo a emoção ansiosa do velho pai, que vê, finalmente, regressar o filho pródigo, esperando que para sempre, para seu amparo e companhia. Gostei muito.
E tudo é azul...
..."o tempo de regresso não se mede. Chega." - Excelente. parei aqui para meditar um pouco. Sim, não se mede....mas dói a espera dessa chegada! Ah...como dói, como fere as entranhas da alma....fere, mutila a vontade , o cer,a Fé!
Excelente texto pleno de visualismo, numa linguagem sóbria mas enebriante. Obrigada!
BShell
E o azul que me ficou nos lábios em forma de um sorriso...
A minha cor, desde sempre. O texto é belíssimo, começo a achar que o próprio tempo é azul...
uma narrativa, cheia de sentimentos, muito bem escrita, verdadeira e comovente.
como sempre, gistei de ler.
beij
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