Imagem: Cortesia da Luisa. Aqui.Sabes? Hoje perguntaram-me se era um homem de fé. Perguntaram-me quando respirava a luz do Tejo logo pela manhã. Lá, naquele mesmo sitio, onde íamos todos os domingos de manhã antes da missa. A missa que me obrigavas a ir, que sabias que eu desprezava. Sempre soubeste que eu apenas fingia mexer os lábios nos cânticos, porque a única coisa em que eu realmente cria no meio de todo aquele ritual sem qualquer sentido para mim, era no meu amor por ti.
Mas perguntaram-me. Se tinha fé. Em Deus. E eu só sentia o cheiro do teu perfume de domingo. Por momentos senti o teu véu de renda preta roçar na fazenda brusca do meu casaco. E repetiram a pergunta perante o meu silêncio. Coitados, não perceberam que apenas esperava que tu me sussurrasses a resposta certa. Mas não. Não disseste nada. Nem uma só palavra. E apontando para as colunas respondi-lhes: A morte não é mais que um simples cais. Para os que têm fé em Deus é um cais de partida. Para um destino incerto. Mas o qual não questionam. Porque quem acredita não precisa de questionar. Para os que não a têm, é o seu cais de chegada. Para trás ficou a certeza das perguntas tantas vezes sem resposta. Mas, hoje, um dia antes de fazer oitenta anos, e temendo cada vez mais esse cais, a que chamo morte, temo sim, acima de tudo, descobrir que vivi sem medo de ter perdido a fé nos homens.
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24 Comentários:
Momento profundos como este põem-nos a reflectir.
Comigo a diferença
eu ficava à porta da Sé
Gostei muito do seu texto
não é difícil perder a fé nos Homens...
(SUSPIRO)
Como gosto das tuas palavra!
sinceros parabéns, pelo livro recentemente dado à estampa.
só hoje, em deambulação digital por blog alheio, me apercebi de tão boa nova..
;-).
flores,
gi.
Também me agrada estar no cais em contemplação. Despojada de todos os deuses. E aqui sentada... a ler-te.
hmmm...
estaremos perante a génese de um androceu?
beijinhos
@:)
Muito bem como sempre
digo eu que sou fã
que bom que é ler-te.
um prazer. um ficar presa.
(e não sou muito fértil a dizer coisas....)
:)~
beijooooooooooooooooo.
(obrigada)
texto tão apropriado para estes tempos sem fé...
bjs Cristina
Muito bonito, Cristina. Quem vive sem medo de perder a fé, nos homens ou em Deus, vive sem medo da solidão. Eu ainda tenho medo. :-)
Pois o teu Deus parece estar nos detalhes de que é feita a tua escrita.
Bj
Hugo
Belo. Pungente.
Abraços d´ASSIMETRIA DO PERFEITO
acho que andamos todos sem fé.
gostei muito de ler o teu texto.
beij
Isso é, de facto, o pior. Perder a fé nos homens. Como sempre, como sempre... a tua escrita fica-me na mente e na pele. **
mas ainda há quem acredite no Pai Natal?
óptimo!
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um beijo
belíssimo texto. acordado.
um abraço
Fiquei presa às palavras e a questionar-me se a morte é para mim cais de patida ou de chegada...
Um belo texto. Beijos.
Estás cá tu.
No pormenor da renda negra, no perfume de Domingo, no olhar alongado pelo cais.
Este brusco, sim.
A atirar quem te lê para a pergunta: E eu? Perdi a fé?
Um abraço em silêncio. Só o coração incomoda.
Escrita exemplar! Parabéns!
muito... muito... tudo!
a fé é tão fácil de perder-se (ou de nunca a encontrar)... nos homens essa facilidade aumenta exponencialmente com o correr dos anos.
um beijo
luísa
Só pode ser um cais de chegada... lindo!
... como o teu texto.
Cristina...Tudo o que escreves se transforma em ...Poesia.Que grande prazer...te levo...!
Desde que não se perca a fé em si próprio.
Isto só me remete ao silêncio. não sai mais nada onde imperam as palavras que nos tocam.
Pela primeira vez digo que amei mesmo o que escreveste aqui.
Um beijo
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