25 de Janeiro de 2009

O Cais

Imagem: Cortesia da Luisa. Aqui.



Sabes? Hoje perguntaram-me se era um homem de fé. Perguntaram-me quando respirava a luz do Tejo logo pela manhã. Lá, naquele mesmo sitio, onde íamos todos os domingos de manhã antes da missa. A missa que me obrigavas a ir, que sabias que eu desprezava. Sempre soubeste que eu apenas fingia mexer os lábios nos cânticos, porque a única coisa em que eu realmente cria no meio de todo aquele ritual sem qualquer sentido para mim, era no meu amor por ti.
Mas perguntaram-me. Se tinha fé. Em Deus. E eu só sentia o cheiro do teu perfume de domingo. Por momentos senti o teu véu de renda preta roçar na fazenda brusca do meu casaco. E repetiram a pergunta perante o meu silêncio. Coitados, não perceberam que apenas esperava que tu me sussurrasses a resposta certa. Mas não. Não disseste nada. Nem uma só palavra. E apontando para as colunas respondi-lhes: A morte não é mais que um simples cais. Para os que têm fé em Deus é um cais de partida. Para um destino incerto. Mas o qual não questionam. Porque quem acredita não precisa de questionar. Para os que não a têm, é o seu cais de chegada. Para trás ficou a certeza das perguntas tantas vezes sem resposta. Mas, hoje, um dia antes de fazer oitenta anos, e temendo cada vez mais esse cais, a que chamo morte, temo sim, acima de tudo, descobrir que vivi sem medo de ter perdido a fé nos homens.
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24 Comentários:

Márcia disse...

Momento profundos como este põem-nos a reflectir.

Mar Arável disse...

Comigo a diferença

eu ficava à porta da Sé

Gostei muito do seu texto

Teresa Durães disse...

não é difícil perder a fé nos Homens...

Laura disse...

(SUSPIRO)

Como gosto das tuas palavra!

Anónimo disse...

sinceros parabéns, pelo livro recentemente dado à estampa.
só hoje, em deambulação digital por blog alheio, me apercebi de tão boa nova..

;-).

flores,
gi.

Elipse disse...

Também me agrada estar no cais em contemplação. Despojada de todos os deuses. E aqui sentada... a ler-te.

b' disse...

hmmm...

estaremos perante a génese de um androceu?

beijinhos

@:)

Luís Maia disse...

Muito bem como sempre

digo eu que sou fã

isabel mendes ferreira disse...

que bom que é ler-te.





um prazer. um ficar presa.



(e não sou muito fértil a dizer coisas....)


:)~



beijooooooooooooooooo.



(obrigada)

Luis Eme disse...

texto tão apropriado para estes tempos sem fé...

bjs Cristina

Luísa disse...

Muito bonito, Cristina. Quem vive sem medo de perder a fé, nos homens ou em Deus, vive sem medo da solidão. Eu ainda tenho medo. :-)

Anónimo disse...

Pois o teu Deus parece estar nos detalhes de que é feita a tua escrita.

Bj

Hugo

Miguel Barroso disse...

Belo. Pungente.


Abraços d´ASSIMETRIA DO PERFEITO

© Piedade Araújo Sol disse...

acho que andamos todos sem fé.

gostei muito de ler o teu texto.

beij

vida de vidro disse...

Isso é, de facto, o pior. Perder a fé nos homens. Como sempre, como sempre... a tua escrita fica-me na mente e na pele. **

gabriela rocha martins disse...

mas ainda há quem acredite no Pai Natal?

óptimo!



.
um beijo

Bandida disse...

belíssimo texto. acordado.


um abraço

Graça Pires disse...

Fiquei presa às palavras e a questionar-me se a morte é para mim cais de patida ou de chegada...
Um belo texto. Beijos.

Gasolina disse...

Estás cá tu.
No pormenor da renda negra, no perfume de Domingo, no olhar alongado pelo cais.

Este brusco, sim.

A atirar quem te lê para a pergunta: E eu? Perdi a fé?

Um abraço em silêncio. Só o coração incomoda.

PoesiaMGD disse...

Escrita exemplar! Parabéns!

pin gente disse...

muito... muito... tudo!

a fé é tão fácil de perder-se (ou de nunca a encontrar)... nos homens essa facilidade aumenta exponencialmente com o correr dos anos.

um beijo
luísa

mfc disse...

Só pode ser um cais de chegada... lindo!
... como o teu texto.

disse...

Cristina...Tudo o que escreves se transforma em ...Poesia.Que grande prazer...te levo...!

M. disse...

Desde que não se perca a fé em si próprio.
Isto só me remete ao silêncio. não sai mais nada onde imperam as palavras que nos tocam.
Pela primeira vez digo que amei mesmo o que escreveste aqui.

Um beijo