Foto de Martin Buday
Depois da meia-noite, todos saíam. As filhas e as noras tapavam os restos de doces que tinham ficado na mesa com os guardanapos de linho branco. Os filhos e os genros pegavam nos netos meio adormecidos ao colo, enquanto os mais velhos vestiam os casacos e escondiam os rostos por detrás dos cachecóis. Havia um dos genros que ateava sempre a lareira no momento antes de sair e tentava também desempenar a velha janela da sala. Para não que não saisse o calor da lareira. Despediam-se dele. E uns dos outros. Dizendo “Feliz Natal”. E a porta fechava-se. No silêncio da casa, o crepitar do fogo esmorecia sob o assobio fininho que vinha da janela empenada.
Depois de todos saírem, o velho olhava o relógio. Sentava-se no sofá de veludo verde. O que tinha as rendas por cima dos braços. E esperava que o som rouco da campainha da porta soasse de novo. Depois abria-lhe a porta. E sorria-lhe. A mulher de vinte anos entrava sem fazer ranger o soalho velho. Como se deslizasse no tempo. Seguia-o até ao quarto, onde descalçava as botas de verniz preto. E as meias de rede. Soltava o cabelo cor de chocolate. O velho apontava-lhe o roupão de cetim azul. Com as ramadas de pessegueiro nas costas. Ela vestia-o sobre o corpo nu. Sentava-se no velho toucador de pau-preto e limpava a sombra azul dos olhos com um lenço de papel. Perfumava-se com a água-de-colónia de rótulo esbatido. Depois deitava-se na cama e recostava-se nas almofadas deixando o cetim azul escorrer no algodão branco dos lençóis. O velho pedia-lhe para prender o cabelo longo com a travessa de tartaruga. Depois guardava, dentro de uma gaveta, a moldura com fotografia de uma mulher que sorria, de cabelo preso com a travessa tartaruga. Sentava-se aos pés da cama, abria um livro e lia-o em voz alta, durante toda a noite. Mesmo depois da rapariga de vinte anos adormecer. Antes do dia amanhecer, aconchegava-lhe os lençóis e deixava-lhe o dinheiro no toucador de pau-preto. Tirava a moldura da gaveta e retribuía o sorriso à mulher da fotografia. E agradecia-lhe por mais uma noite Natal sem solidão.
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Um Feliz Natal a todos!
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