Agora estarei por aqui
Deserto do Mundo
2 de Setembro de 2011
9 de Agosto de 2011
Tudo tem um fim
Até os grãos, que são histórias, de um deserto têm um fim. Estas terminam aqui. Ao fim de mais de três anos Que antes de serem três já eram mais, começados em 2007, sob a forma de historias de mulheres, que um ano depois deu origem ao Gineceu.
A todos os que sempre me acompanharam, ou mesmo aos que há pouco começaram comigo esta travessia, deixo aqui a minha gratidão pela companhia dos vossos olhos.
Mas mais histórias virão. Noutra casa, noutro projecto. Em Setembro, o mês das primeiras chuvas, do lavar das poeiras secas do Verão. Em Setembro estarei por aqui. Onde o deserto se torna confeitaria.
Bem hajam! Espero ver-vos lá, na minha confeitaria, em Setembro.
Cristina
A todos os que sempre me acompanharam, ou mesmo aos que há pouco começaram comigo esta travessia, deixo aqui a minha gratidão pela companhia dos vossos olhos.
Mas mais histórias virão. Noutra casa, noutro projecto. Em Setembro, o mês das primeiras chuvas, do lavar das poeiras secas do Verão. Em Setembro estarei por aqui. Onde o deserto se torna confeitaria.
Bem hajam! Espero ver-vos lá, na minha confeitaria, em Setembro.
Cristina
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O Fim de um ciclo
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2 de Agosto de 2011
10 de Junho de 2011
Credo
Às quartas feiras fazia canja e arroz de forno. Depois sentava-se no topo da mesa da cozinha comendo a custo o caldo cuja gordura lhe causava náuseas. Mas sempre lhe fizera canja às quartas feiras, e deitar duas conchas no prato de lugar vazio reconfortava-lhe mais a alma que uma tentativa de oração a um deus em que nunca acreditara. Lá, na capela, estranhamente construída na cave de um prédio, ela tentava que as palavras fizessem sentido. Mas não. E por isso servia canja num lugar vazio, e continuava a separar-lhe a camisa pela manhã. Na sala, onde tinha sempre a televisão ligada começara o noticiário. Deixou o prato no lava louça e parou um instante com a mão pousada nas costas da cadeira vazia. Amanhã rezo por ti na missa, murmurou.
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8 de Junho de 2011
Doppler
Vivia numa rua em Alcântara, perto do Calvário. Mesmo por cima da loja que vendia cerejas em Junho e alguidares de barro todo o ano. Todas as manhãs, da janela da sala, onde apenas cabia o tempo do sofá coçado e a vista para a ponte, via ser desenrolado o toldo cor de laranja. Bastava-lhe o primeiro chiar enferrujado para se chegar à janela. Lá em baixo, a cabeça cor de baunilha oleosa acenava a quem passava. Bom dia, senhor Ernesto, dizia. Ele dobrava a manivela e encostava-a à parede descascada. Bom dia, menina. Depois ficava os minutos que lhe sobravam até ser hora do autocarro, a ver os carros afastarem-se na ponte. Embalava-a, aquele som que se perdia até ao outro lado do rio. É o efeito de Doppler, dissera-lhe um dia um dos alunos que passara pela sua cama. Não se lembrava do rosto dele. Mas lembrava-se da voz tímida, sentada, em tronco nu, no sofá coçado da sala. É o efeito de Doppler, repetira, tão a medo, como lhe tocara no corpo nessa noite. A percepção das noites esbatia-se quando eles se afastavam do quarto, dobrando a esquina da rua. Depois, esquecia-se do rosto de todos eles. É o efeito de Doppler, murmurou. Lá em baixo uma velha escolhia um alguidar de barro.
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4 de Maio de 2011
36 e meio
Todas a sextas de manhã era o mesmo. O corpo doía-lhe da pancada que ele lhe dava depois de se servir do corpo dela. Aliviava a raiva nela, de todas as formas que o corpo lhe permitia. Apenas com o corpo, porque o fazia num silêncio ressentido que nela deixava nódoas negras ainda maiores. E mal havia luz do dia, ela levantava-se devagarinho e sem gemer. Para não o acordar. Para não o ver chorar e prometer-lhe que não voltava a acontecer. Preferia a pancada e o corpo rígido sobre o dela. Lavava-se, vestia-se e corria para a sapataria que ficava em frente à repartição de finanças onde trabalhava. E lá estavam eles. Vermelhos, sem preço. Que as coisas que nos descansam os olhos não têm preço, dizia ela. E onde ias tu com uns sapatos daqueles, mulher? Perguntava-lhe a colega gorda e de cabelo oleoso, que estava na tesouraria. Até ao fim do mundo, respondia. Porque só o fim do mundo fica suficientemente longe daqui.
Até que numa sexta feira, daquelas sem movimento, uma mulher que já fora bonita pediu-lhe baixinho a guia para pagar o selo do carro. Ela levantou os olhos do teclado do balcão e viu-lhe o rosto negro e amassado, que tentava desesperadamente dissolver-se na madeira do balcão. O meu homem zangou-se por eu ter deixado passar prazo. Fez um sinal à colega gorda e oleosa da tesouraria. Um sinal com a mão, porque o nó da garganta não a deixou falar. Para que ficasse no lugar dela um bocadinho. E saiu disparada até à loja da frente, onde comprou os sapatos em troca da aliança. Nem se quis ver ao espelho com eles calçados. Disse o dono da sapataria. Também não disse para onde ia. Mas não deve voltar.Que os sapatos lhe serviam como uma luva.
Até que numa sexta feira, daquelas sem movimento, uma mulher que já fora bonita pediu-lhe baixinho a guia para pagar o selo do carro. Ela levantou os olhos do teclado do balcão e viu-lhe o rosto negro e amassado, que tentava desesperadamente dissolver-se na madeira do balcão. O meu homem zangou-se por eu ter deixado passar prazo. Fez um sinal à colega gorda e oleosa da tesouraria. Um sinal com a mão, porque o nó da garganta não a deixou falar. Para que ficasse no lugar dela um bocadinho. E saiu disparada até à loja da frente, onde comprou os sapatos em troca da aliança. Nem se quis ver ao espelho com eles calçados. Disse o dono da sapataria. Também não disse para onde ia. Mas não deve voltar.Que os sapatos lhe serviam como uma luva.
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29 de Março de 2011
Da solidão da língua portuguesa
Dez minutos antes de sair para o café, abria o dicionário de capa verde numa página nova e decorava as palavras que lhe pareciam ser as mais difíceis. Passava os dedos por cima de cada uma daquelas linhas escritas em itálico, com o mesmo cuidado com que punha batom.Palavras que depois rolaria lentamente na sua boca de lábios finos, entre duas baforadas de cigarro. O silêncio dos outros, que ela confundia com espanto, demorava o tempo do largar da cinza no cinzeiro de alumínio. Que ela fazia com um gesto seco e seguro. Naquele dia decorara ósculo. O mesmo que beijo. Pequena abertura, face externa dos grãos polínicos. Mas ninguém no café falava de botânica. Ela muito menos, que nem o nome das plantas que a mãe lhe trazia em vasos pequenos de barro, sabia. Mas um beijo, ou da ausência deles, toda a gente teria algo a dizer. E enquanto punha verniz numa malha aberta dos collants, imaginou-se a dizer lentamente: Ósculo. Gosto de ósculos. Gosto que me osculem. Um beijo, dito desta forma, por uma mulher de rosto transparente como o seu, perdia a viscosidade da solidão, ganhava a erudição de quem só não beijava porque não queria. Quando se sentou na segunda mesa a contar da janela, sorriu ao perceber que se falava exactamente de beijos. Dos beijos memoráveis. Ela acendeu o cigarro, deu a primeira baforada e disse: Já não me lembro do meu primeiro ósculo. Antes de soltar a segunda, sentiu que lhe seguravam levemente na mão. Um dos rostos da mesa aproximou-se do seu e disse-lhe baixinho: Tenho pena da tua solidão, Adelaide. Soltou o fumo pelas narinas num longo suspiro e deixou que a cinza que lhe caísse distraída na saia imaculadamente branca. E pensou que da próxima vez teria de responder com um sinónimo desconhecido de solidão.
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24 de Março de 2011
Teófilo
Cuspia no chão sempre que passava pelo padre da vila. Tirava a velha boina basca, pousava-a sobre o lado esquerdo do peito, aquele onde acreditava ter o coração, e cuspia. E ficava, hirto, de boina ao peito de olhos fixos no padre que atravessava a estrada. És doido, diziam abanando a cabeça. Não, respondia. Sou um homem de fé. E as mulheres de quase-negro benziam-se. Ou beijavam a cruz, se a trouxessem ao peito. O que sabes tu de fé, homem? Tu que cospes aos homens de Deus? E ele guardava a boina no bolso das calças e lembrava-se. Lembrava-se da tia, que sempre fora velha, e que também deixara de ir à igreja por acreditar que o incenso lhe fazia mal à bronquite, lhe dizer que Deus-nosso-senhor só aparecia àqueles que dele duvidavam. E dois dias depois de fazer nove anos, na missa de Domingo, começou a cuspir. Ao padre que lhe estendeu o cesto das oferendas. Depois, sentou-se de mãos no colo e rosto a arder pela mão envergonhada da mãe e esperou. Esperou que Ele viesse e que o inundasse daquela fé que fizera o primo ir para o seminário. És doido, diziam na vila. E ele sorria e dizia baixinho: Talvez, mas o sacana ainda um dia me aparece.
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14 de Março de 2011
Caixa de Sândalo
Sempre que imaginava as coisas mais do que três vezes, elas aconteciam. Acontecera com o vizinho. Que fora encontrado morto na cama, de rosto retorcido pela dor. Tal e qual como ela o imaginara de todas as vezes que ele, viscoso, lhe respirara para cima do decote. Acontecera com o irmão mais velho, de quem tantas vezes se imaginara despedir no cais, partindo para a guerra de Angola. Acontecera a filha, de quem sempre imaginou a cor de fogo do cabelo. Mas quando se imaginou nos braços do professor de música que vivia no anexo dos pais, ganhou medo aos seus próprios sonhos. Porque havia sonhos que uma mulher casada com um homem de cabelos pretos, não podia ter. Por isso, passou a escreve-los em pequenos cartões sempre que se repetiam. Escrevia-os na sua letra miudinha, guardava-os numa caixa de madeira perfumada, escondida num canto do guarda-fatos. Lentamente, foi-se esvaziando dessas coisas que lhe perseguiam a imaginação, na mesma toada que a sua vida se esvaziava de gente e de tempo. E quando a solidão grisalha chegou, lembrou-se da caixa. Abriu-a e tirou o cartão que tanto vazio lhe trouxera. E leu-o três vezes. Ou talvez mais. Leu-o até ouvir a campainha da porta. Para onde correu. Onde ficou de pernas tremendo. E quando a abriu estendeu-lhe os braços. Ao professor de música que vivera no anexo dos pais. A quem o tempo não roubara o cabelo cor de fogo.
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23 de Fevereiro de 2011
Ford Cortina
Hoje pareceu-me que o velho Cortina verde passara por mim. E quis acreditar que eras tu quem guiava o volante colocado do lado direito. Porque lá se guiava ao contrário, respondias tu quando te perguntava porque é que nosso velho carro verde era diferente dos outros. Lá, era como chamavas aquela terra de onde sorrias nas fotos de colorido esbatido. Estranho sítio esse, pensava eu, sentada no banco de trás, olhando o teu perfil. Estranha terra, onde não fazia frio no Natal, se conduzia ao contrário e que te punha os olhos do outro lado do hemisfério sempre que falavas dela. Como se o tempo e o espaço partilhassem o mesmo meridiano e paralelo. E eu quis hoje que os meus olhos dobrassem esses eixos assim, como fazias. Porque hoje, quis muito, muito, que me levasses de novo no velho Cortina verde com o volante ao contrário.
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