21 de Dezembro de 2009

Tempo de Natal


Foto: Shannon Richardson



É tempo de Natal. Com ou sem fé. Ou pelo menos fé na magia que corria para além do frio da janela. É tempo de perpetuação daquilo que desejamos permanecer em nós. Tempo de cheiros quentes e sons brilhantes.
Um Feliz Natal para todos os que comigo partilham esta travessia.
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14 de Dezembro de 2009

1º Esquerdo (I)

Às terças levava-lhe as camisas passadas e arrumava-lhe a casa. Isto porque ficara com as manhãs de terças livres desde que o senhor do 1º direito fechara a livraria. Só se for mesmo às terças de manhã. Dissera-lhe, sentada num cadeirão de pau preto defronte da janela que dava para a varanda. E franzia os olhos para lhe tentar ver o rosto em contra-luz. Pois, só mesmo as terças de manhã. Repetira de mãos cruzadas sobre a fazenda da saia. Nos outros dias não pode mesmo ser. Às segundas vou à senhora do rés-do-chão esquerdo. E tem de de ser o dia todo. Não que a senhora seja desmazelada. Muito pelo contrário. Muito séria e limpinha. Mas tem a mãe incapacitada. Bem, não é realmente incapacitada, é idosa. Muito idosa. E tenho de lá ir três vezes por semana, para a ajudar com a muda da cama. E depois a senhora vive sozinha. Com a mãe, mas essa nem conta. Coitada o que lhe fazia falta era um homem. Quero eu dizer, para lhe dar apoio. Credo, que eu não estava a insinuar mais nada. Que com aquela idade já não deve estar para isso. Para ter um homem. Percebe? Também isso não interessa. O que lhe quero dizer é que segundas, quartas e sextas, mas as sextas só de tarde, passo-as lá. A ajudá-la com a mãe. Porque a casa, está muito limpinha. Quase não precisa que eu lhe faça nada. Os outros dias? Olhe, as sextas de manhã, vou ao rapaz do terceiro direito. Esse sinceramente nem sei o que lá vou fazer, porque aquilo são livros ao monte por todos os cantos. Uma pessoa quer limpar e o rapaz não deixa mexer em nada. Fica ali, nervoso a limpar os óculos a olhar para mim enquanto lhe aspiro o chão. Sim porque ele não deve ter emprego certo senão não passava as manhãs de sextas ali parado a olhar para mim. Uma pessoa nem se sente à vontade. E depois tenho a terças à tarde na senhora do rés-do-chão direito, que faz bolos para fora. Para dizer a verdade nem é a tarde toda. E também não é todas as semanas, que a senhora coitada não tem posses para isso. O marido não tem lá grande emprego e aquilo dos bolos sabe como é. Não dá nada. E coitada tem lá um fardo de um filho que cá para mim é drogado. Volta e meia entra em casa manhã dentro com umas olheiras até ao queixo. Só pode ser droga. E é como lhe digo vou lá semana sim, semana não. O que me dá jeito, que nas semanas em que fico com a terça à tarde livre, aproveito para limpara minha casa, que como não é diferente das outras também se suja. Por isso é como lhe digo só pode mesmo ser à terça de manhã. As quintas? As quintas fico em casa a passar a roupa ao peso. Se quiser posso levar a sua também. Vive sozinho não vive? Pois, então também são meia dúzia de peças e passa-se num instante. Não se é esqueça de me dar as cruzetas. Fica então terça. Ora bem. É como lhe digo teve sorte. Muita sorte. Se o senhor do primeiro direito não tivesse fechado a loja não lhe conseguia valer. Olhe, era capaz de mandar cá a minha cunhada. Mas ela é uma rapariga nova, e as novas sabe como é, limpam tudo por cima da rama e nem querem aprender como se faz.

9 de Dezembro de 2009

Metamorfoses




................................Estou cansada.

Doem-me as pernas, dói-me o espírito.

O corpo mole, pesado, desfaz-se na cama onde me deito.

Afunda-se infinitamente. Os cobertores aconchegam-me

neste Inverno tardio e o dilúvio desintegra-se lá fora

em gotas de água incessantes.

Perturbadoras rajadas na pele acomodam-se em arrepios.

Estou cansada e amanhã será outro dia,

uma outra mutilação ao corpo.

À parte disso

deixo-me repousar eternamente

num submergir de vida.


in Metamorfoses - Margarida Cardoso ( Papiro editora 2009)


Vale a pena um debruçar sobre a poesia da Margarida. Vale a pena respira-la. Aqui e na Ler Devagar no dia 12 pelas 19.00.




( A Rua da Memória nº 9 regressa na segunda-feira. Até lá!)


28 de Novembro de 2009

Rés do Chão Esquerdo


Continuava a fazer as traduções na velha máquina de escrever. Não se habituava ao computador que comprara quando fizera cinquenta anos. Precisava do martelar das velhas teclas e do tilintar do carreto para se concentrar. E de uma caneca de chá. Preto. Bem forte e doce. Os dias corriam sobre a mesa de carvalho da casa de jantar entre chávenas de chá e o tamborilar no teclado cinzento. À noite, colocava a tampa na máquina de escrever e ajeitava a pilhas de folhas brancas . E fechava o livro. Um dos muitos cuja contracapa exibia a sorridente senhora de cabelos brancos e chapéu cor de rosa. Levava o leite morno e o comprimido para dormir à mãe. Ajeitava-lhe o xaile de dormir e as cobertas da cama. Esperava que ela adormecesse, vestia a camisa de noite de renda preta e deixava a porta da rua encostada. E esperava na penumbra. Sentada de joelhos bem unidos, no sofá de flores debotadas. E ele vinha. Como todas as quintas feiras. Magro. De olhos, negros e profundos, ficava à entrada da sala, até que ela lhe pegava na mão e em silêncio o conduzia ao quarto. Ele pedia para acender a luz. Ela negava com um gesto breve do queixo. Esperava que ele de despisse e se deitasse na cama. Mais uma noite sem idade. Dizia antes de lhe colocar a mão nos seus seios flácidos. E voltava a ter pouco mais de vinte anos até ao amanhecer. Quando lhe pedia que se fosse embora. Que voltasse para o seu quarto, do outro lado da escada. Antes que os pais dessem por falta dele. Ele beijava-a e dizia. Obrigada. Quando ouvia a chave na porta da frente, ela levantava-se da cama, vestia o roupão e sentava-se de novo na mesa de carvalho da casa de jantar. Sempre a duas páginas do final feliz.

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25 de Novembro de 2009

1º Direito



Esperara o fim de tarde no banco da praceta. A que ficava a dois quarteirões da sua rua. E esperara. Sentado numa das pontas do banco escamado de verde. No chão, o último dos caixotes. Mal fechado com fita adesiva castanha. A mesma com que colara o papel pardo às portas de vidro da loja. Trespassa-se, em maiúsculas verdes. As prateleiras vazias de cheiro de papel. De tinta nova. Trespassa-se uma vida vazia de livros velhos. Pensara, enquanto o marcador verde percorria a folha de papel pardo. Fechara a caixa registadora, como todos os dias. Os estores de lâminas de alumínio. E ao ouvir o sino da porta, voltou atrás para mudar a folha do calendário. O fim da tarde chegara. Mas não a coragem de voltar para casa. E contar-lhe. Que fechara a loja. Que falhara. Que guardasse as páginas de classificados para que ele pudesse procurar alguma coisa que ajudasse a pagar a renda. Estudou o tom de voz enquanto subia a rua. Imaginou-lhe os olhos desiludidos. A voz sarcástica. A noite chegara. E quase que conseguiu ouvir-lhe o choro baixinho e resignado vindo do quarto. Os degraus pareceram-lhe intermináveis. E imenso, o peso do caixote. Boa tarde. Era o velho do segundo direito. Olhou o caixote. Quer ajuda? Pensou que sim. Em aliviar o fardo. Foi aí que lhe perguntou: Gosta de poesia? O velho sorriu e disse que sim. Tem aqui muita. Eu deixo-lhe o caixote em cima do tapete. E conto-lhe amanhã, pensou. Ou noutro amanhã. Num dia melhor. Que chegou na manhã em que os bombeiros lhe bateram à porta, perguntando-lhe se aquele caixote era dele. Tinha o nome dele escrito de lado. Encontramos os corpo caído ao lado dele. E reparou que só faltava um livro. Um pequeno de capa cinzenta.
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23 de Novembro de 2009

3º Esquerdo



Fora o velho do segundo direito quem lhe dera o livro. Como agradecimento por lhe ter tratado do gato durante uns dias em que se ausentara. Um livro pequeno, de capa cinzenta. Poesia. Eu nunca li poesia, disse ela, enquanto folheava distraidamente as páginas do pequeno livro. Diga-me depois o que achou. E ela que nunca lera poesia levara-o para a mesa de cabeceira. Ao início lia-o lentamente. Depois, à medida que se foi apaixonando por cada um dos versos entregou-se sem pudor à paixão que aquelas palavras lhe despertavam. E terminava sempre passando os dedos pelo nome do autor. Sussurrava-o imaginando-o ali, ao seu lado, de voz profunda, olhos graves dizendo-lhe aqueles poemas. Imaginava-o belo. Que só as pessoas belas podem escrever assim. Dizia. E por isso amou cada uma das palavras daquele livro. Um dia, na varanda descobriu que o seu triste vizinho de rosto vermelho, coberto de acne, era o seu amado poeta. Pareceu-lhe impossível que o vizinho de olhar viscoso sobre o seu corpo fosse capaz de escrever um verso que fosse. Baixou os olhos e ofereceu-lhe tabaco. Ele recusou e queixou-se da asma. E ela refugiou-se horrorizada no seu quarto e no seu livro de poemas sem rosto. O mesmo que pedia a todos os que passaram pela sua cama,que lessem. E pedia-lhes que repetissem vezes sem conta os poemas antes de fazerem amor.
Naquela manhã, quando o prédio acordara com a morte do velho do segundo direito, lembrou-se que nunca agradecera o livro. Lembrou-se, quando na paragem do autocarro viu o seu infeliz vizinho sentado na esplanada do café de toldo verde. E enquanto o seu novo amante de pele lisa e olhos verdes lhe beijava o pescoço ela pediu de olhos cerrados. Diz-me de novo o poema. Diz-me de novo aquele poema. O Poema para Roxane.

18 de Novembro de 2009

3º Direito



Quando as manhãs húmidas lhe impregnavam os ossos, mudava de humor. Enroscava-se nos camisolões grossos tricotados pela mãe e no cachecol que uma antiga namorada lhe dera. A que lhe dissera que já não o amava pelo telefone. E que agora quando se cruzava com ele, fingia não o conhecer. Nem ao cachecol de flanela vermelha que lhe dera. A humidade das manhãs de Outono avermelhavam-lhe os nós dos dedos. E escrever tornava-se um acto penoso. Mais penoso ainda que as purgas da alma. E por isso lia. Saía cedo e sentava-se na esplanada do café de toldo verde. Limpava com um lenço de papel a cadeira que ainda escorria a condensação da noite. Com outro limpava os óculos permanentemente embaciados e lia. Pelo menos durante dez longos minutos até ela chegar à paragem de autocarro. Em frente. Ela acenava-lhe ligeiramente com a cabeça. Quase esboçava um sorriso. Ele pensava se não seria melhor convidá-la para um café. E esperava que ela se voltasse e quase sorrisse de novo. Mas o autocarro chegava mais uma vez. Esperaria pela noite. Quando ela vinha fumar um cigarro à varanda. Um dia estendeu-lhe o maço. Ele recusou. Tenho asma. Pareceu-lhe que ela esboçava um sorriso de ironia. Escondeu o queixo cheio de acne, no cachecol. Desde essa noite que deixara de conseguir imaginar-se a fazer amor com ela. Imaginava-se nú, humilhado pela falta de ar. Mas hoje, apesar da dor nos ossos e no ego iria-a convidá-la. Pediu um chá de limão para poder tomar o comprimido para a gripe. E enquanto se assoava ela chegou. Abraçada, aos beijos com um homem que lhe percorria com as mãos o corpo perfeito, sem pudor. A raiva apoderou-se dele. Quando o imaginou descalçando-lhe as botas de vinil, seu preciso objecto de fantasias e erecções, de todas as noites. Sentiu um imenso desprezo por ela, bebeu os dois necessários goles de chá quente para engolir o comprimido. Assoou-se mais uma vez e quando ela quase lhe sorriu, voltou-lhe a cara. E ao entrar no prédio imaginou. Que a humilhava. Que a desprezava. E quando estava quase a transbordar de sarcasmo e indiferença, um dos bombeiros pediu que se desviasse para que pudessem passar com o saco preto.

16 de Novembro de 2009

Rés-do-chão Direito



Houve uma manhã em que o velho do casaco de xadrez não desceu. Quem o notou foi a mulher do rés-do-chão, que todos os dias o via atravessar a rua em direcção ao quiosque. Todos os dias dez minutos antes das nove, enquanto ela do outro lado da cortina de bordado inglês ordinário, bebia o café por uma chávena almoçadeira. Mas naquela manhã não ouviu o barulho seco da porta da rua. Nem o viu atravessar a rua de blocos de granito. E pensou que seria melhor bater-lhe à porta não fosse ele estar doente. No preciso momento em que pensou isso, a porta da rua abriu-se. A sua. Pousou a chávena almoçadeira em cima do pano de crochet e olhou fixamente a porta. O filho entrou. A angustia de todas as manhãs apoderou-se dela. Quis gritar-lhe, abanar-lhe os ombros, mas quando os olho pisados dele pousaram nela, ela apenas murmurou de olhos baixos, fugindo da magreza excessiva dele. Vai para o teu quarto. Não acordes o teu pai. Do outro lado da cortina de bordado inglês, o homem do quiosque pendurava o jornais. Ao fundo do corredor uma porta fechou-se. A pena de si foi tanta que se sentou. Para se poder lembrar melhor da sua má sorte. Que lhe pareceu tão grande que só se voltou a lembrar do homem do casaco de xadrez no dia seguinte. Quando viu os bombeiros a leva-lo dentro de um saco preto.
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